Quinta-feira, 28 de Dezembro de 2006
Algodão sem toxinas pode alimentar os mais pobres
"

Os investigadores modificaram geneticamente plantas de algodão para produzirem sementes livres de toxinas, potencialmente libertando um conteúdo nutricional suficiente para alimentar 500 milhões de pessoas todos os anos no mundo.

O algodão é cultivado em mais de 80 países e é uma fonte primária de fibras para têxteis, fornecendo rendimentos importantes a perto de 20 milhões de agricultores na Ásia e em África mas uma característica pouco conhecida da planta do algodão é que por cada quilograma de de fibra produzida se forma também 1,65 quilos de semente cheias de proteína de alta qualidade. Assim, o algodão tem a capacidade de fornecer os requisitos proteicos de milhões de pessoas sem que haja qualquer redução na produção de fibras.

A semente do algodão é sub-utilizada devido à presença de gossipol, uma molécula tóxica que pertence a uma classe de químicos orgânicos conhecida por terpenóides. O gossipol encontra-se em glândulas localizadas nas folhas, caules e tecidos florais das plantas do algodão e dão ao organismo protecção contra insectos e agentes patogénicos. Apenas os animais ruminantes conseguem digerir com segurança a toxina.

Agora, usando a tecnologia de interferência de RNA (RNAi), os investigadores encontraram uma forma de alterar uma enzima crucial e reduzir o conteúdo em gossipol das sementes do algodão em 98%, ainda que deixando as defesas químicas do resto da planta intactas. 

A equipa mostra que a ausência da toxina é hereditária e que as plantas sem gossipol podem ser usadas na agricultura em larga escala na edição desta semana da revista Proceedings of the National Academies of Science.

"O que a investigação faz é disponibilizar uma enorme quantidade de recursos sub-utilizados para utilização directa como alimento para o Homem ou indirecta para alimento de galinhas, porcos ou peixes", diz Keerti Rathore do Institute for Plant Genomics and Biotechnology da Universidade A&M do Texas em College Station e principal autor do estudo.

Rathore salienta que a ração pode ir muito mais longe em galinhas, porcos e peixes do que vacas: são necessários cerca de 6 Kg de ração animal para produzir um quilo de bife, enquanto a razão para as galinhas é mais próxima de 2:1.

Deborah Delmer, directora associada da Rockefeller Foundation em Nova Iorque e perita em segurança alimentar agrícola, salienta que um benefício da utilização da tecnologia RNAi é que desliga a expressão de um gene em vez de activar uma nova função ou gene. "Assim, em vez de introduzir uma nova proteína estranha, estamos só a desligar um dado processo", explica Delmer. "Dessa forma, penso que as preocupações de segurança podem ser bem menores que com outras técnicas de engenharia genética."

Delmer salienta que um aspecto ainda desconhecido desta investigação é até que ponto é estável a supressão ao longo de muitas gerações. A equipa tenciona realizar testes de campo extensos para tirar essa dúvida.

Os investigadores tentaram pela primeira vez desbloquear o conteúdo nutricional da semente do algodão há mais de 50 anos, criando uma planta mutante sem glândulas. Conseguiram eliminar a presença de gossipol em todos os tecidos da planta mas dessa forma elas rapidamente foram atacadas por doenças e não puderam continuar a ser cultivadas.

Rathore pensa que o RNAi dá grandes esperanças para outras colheitas com compostos tóxicos. Uma resistente leguminosa conhecida por chícharo Lathyrus sativus, por exemplo, também poderia fornecer grande potencial nutritivo nas sementes se não tivesse uma neurotoxina. Muitas populações pobres na Ásia e em partes da África já recorrem a esta colheita de fome, como é designada, e por vezes sofrem de paralisia e outros problemas de saúde em consequência disso.

As sementes do algodão têm um sabor semelhante a nozes, diz Rathore. As sementes sem gossipol podem ser assadas e salgadas, diz ele, como a soja. A refeição também pode ser misturada com farinha de trigo, milho ou outros cereais para fornecer proteína para pão.

Os autores, que declaram não ter interesses financeiros na industria do algodão, estão esperançados que a colheita "pegue", apesar da resistência social aos organismos geneticamente modificados. "Não imediatamente mas pelo menos daqui a 10 ou 20 anos, penso que as pessoas vão aceitá-la", diz Rathore. "

                               in_simbiotica.org


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