Sábado, 25 de Agosto de 2007
Ilusão simula experiências extra-corporais
"Os cientistas enganaram propositadamente pessoas de modo a que elas sentissem 
que estavam a observar-se a partir de fora do seu corpo, usando tecnologia de
realidade virtual. O facto revela a forma como o cérebro pode ser confundido
quando tenta integrar informação confusa de sentidos diferentes.
Pessoas que alegam ter tido experiências extra-corporais (EEC), 
como os famosos pacientes nas mesas de operação que escaparam à
morte, descrevem uma sensação de flutuar para fora do corpo, por
exemplo em direcção ao tecto de uma sala de operações. Daí
observam o seu próprio corpo e as actividades que o rodeiam.
Essas experiências, alegam os espiritualistas, representam a 
evidência da existência de uma alma mas a nova pesquisa mostra
que é possível criar uma sensação semelhante simplesmente
pregando uma partida à mente.
Compreender como a mente por vezes se apercebe de si própria 
como se estivesse a sair do corpo pode ajudar no desenvolvimento
de jogos de computador mais realistas ou de sistemas robóticos
remotos, bem como ajudar a compreender o cérebro daqueles que
alegam experimentar o fenómeno naturalmente, como os
esquizofrénicos ou os epilépticos.

Este voluntário


pode começar a pensar que está onde a câmara está, ou seja, começa a ver-se


a si próprio de fora. Clique aqui para


ver um vídeo de outra experiência semelhante.

@Henrik Ehrsson / Science




O efeito foi criado em duas experiências separadas descritas na
revista Science desta semana, ambas usando um método simples
para enganar os voluntários a pensarem que as suas mentes tinham
sido separadas dos seus corpos. Em cada caso, os participantes
usavam óculos de realidade virtual ligados a câmaras treinadas
nos seus próprios corpos.
Num dos estudos, realizado por Henrik Ehrsson, do University
College de Londres, os voluntários eram depois tocados no peito
exactamente no mesmo momento em que um objecto se aproximava da
câmara. Neste cenário, o voluntário identificava-se fortemente
com a localização da câmara, pensando que era aí que se
encontrava o seu verdadeiro eu, a visão do seu corpo era como a
visão que outra pessoa teria.
Noutra experiência, conduzida por Olaf Blanke, Instituto Federal
de Tecnologia de Lausanne, Suíça, os voluntários viam uma imagem
através da câmara das suas próprias costas a serem tocadas,
enquanto as costas eram realmente tocadas.
Neste caso, os voluntários identificavam-se fortemente com a
imagem das suas costas, pensando que esta era a sua localização,
novamente fora do seu próprio corpo.
O bizarro efeito ocorre porque, ainda que habitualmente tenhamos
a percepção de estar no nosso próprio corpo, a construção da
experiência nos colocou na situação de a informação que chega ao
nosso cérebro não estar de acordo com esta ideia, explica Ehrsson.
"O cérebro pode enganar-se a si próprio internamente porque está
sempre a tentar fazer sentido da informação, se essa informação
tiver falhas ou for errónea, pode chegar a uma interpretação errada."
O método não recria a 'clássica' EEC, principalmente porque nos
cenários reais não existe uma forma óbvia de nos 'vermos' a nós
próprios, mas talvez as pessoas possam desenhar a imagem mental
do seu próprio corpo para criar o mesmo efeito, diz Ehrsson.
"Numa sala de operações não há espelhos no tecto mas pode existir
um 'espelho' na mente." Ehrsson e Blanke suspeitam que esta
ilusão pode envolver algum tipo de problema em regiões cerebrais
como o córtex tempo-parietal, que integra a informação sensorial.
Ainda assim, "esta nova experiência veio finalmente trazer as
EEC para o laboratório e testou uma das principais teorias sobre
a forma como ocorrem", comenta Susan Blackmore, psicóloga da
Universidade West of England em Bristol. "Descobrir que as EEC
são um fenómeno perfeitamente natural não prova que não existe
um corpo astral, ou alma ou espírito, mas certamente torna a sua
invenção supérflua." O efeito até funciona com manequins de
plástico, como descobriu a equipa de Blanke quando substituiu a
imagem do voluntário pela imagem de um manequim feminino comprado
por apenas 100 francos suíços (veja o vídeo). Mas quando se
utilizou um simples quadrado de metal como imagem, o efeito de
EEC não se materializou, mostrando que o truque não pode ser
'esticado' indefinidamente.
Descobrir exactamente até que ponto os voluntários podem suspender
a descrença será crucial no desenvolvimento de tecnologia que
permita aos utilizadores assumir diferentes personalidades, de
robots remotos a avatares de realidade virtual, diz Blanke.
Usar informação visual e táctil apropriada para transmitir a
sensação de estar a operar no corpo de um robot ou personagem
virtual pode ajudar situações tão diversas como o projecto da
NASA Robonaut, que pretende controlar robots na Lua, a cirurgiões
que realizam operações através da Internet.
"Essas aplicações podem ser melhoradas se tivermos a ilusão de
que estamos mesmo lá, agiremos de forma muito mais intuitiva",
diz Ehrsson."
in_ simbiotica.org

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